A camiseta suja mais limpa
Junho foi marcado por uma volatilidade excepcionalmente elevada nos ativos de risco em escala global, impulsionada por fatores que, longe de serem transitórios, estão redefinindo os mercados no segundo semestre do ano. A queda no preço do petróleo — cerca de 30% em relação às máximas recentes — a mudança de tom do Federal Reserve (Fed) sob sua nova liderança e a aceleração dos fluxos para ativos em dólares configuram um cenário que coloca em dúvida vários dos grandes consensos com os quais o ano começou.
O “excepcionalismo americano” está de volta, agora com uma dimensão mais ampla. Se até pouco tempo atrás ele se manifestava principalmente por meio dos mercados de ações — concentrado em empresas relacionadas à inteligência artificial (IA) e algumas empresas de tecnologia mega caps —, a nova liderança do Fed acrescenta um componente de taxas reais que lhe confere maior robustez e alcance macroeconômico.
Kevin Warsh, novo presidente do Fed, adotou uma retórica centrada na credibilidade institucional e no retorno à meta de estabilidade de preços. Essa mensagem explica em grande parte por que as taxas de dois anos permanecem elevadas — em torno de 4,15% — mesmo quando as expectativas de inflação implícita para dois e cinco anos recuaram para mínimos de 2024, um fenômeno incomum, considerando que o preço do petróleo voltou a níveis semelhantes aos de fevereiro. O sinal é de que o mercado está disposto a pagar um prêmio real significativo por ativos em dólares.
Esse cenário é, ao mesmo tempo, um desafio para o resto do mundo. A Europa não consegue apresentar uma resposta fiscal e de crescimento convincente, o Japão mantém taxas reais profundamente negativas e o iene continua se desvalorizando para níveis que geram crescente inquietação, e a China também não oferece o contrapeso de crescimento que muitos esperavam. Nesse contexto, a tese da “camiseta suja mais limpa” — que os Estados Unidos, apesar de seus próprios desequilíbrios fiscais, continuam sendo o destino preferido do capital global — ganha validade. O déficit fiscal norte-americano gira em torno de 6% do PIB em um ciclo de pleno emprego, uma anomalia histórica; e, no entanto, continua atraindo fluxos porque as alternativas parecem ainda menos atraentes quando ajustadas pelo risco.
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