Crônicas de uma morte anunciada
Com a escalada do conflito no Oriente Médio e as bruscas correções dos mercados no início de março, materializam-se riscos latentes que convergem para um desfecho quase anunciado: queda sincronizada dos mercados financeiros.
Os mercados financeiros haviam mostrado uma força notável até antes da escalada das tensões no Oriente Médio. Os principais índices globais acumulavam retornos positivos no início do ano, tanto em títulos quanto em ações, nos mercados emergentes e desenvolvidos. No entanto, o ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã gera incerteza e provocou um aumento significativo da volatilidade, juntamente com quedas sincronizadas. Esperamos que, à medida que o conflito cesse, o mercado absorva as tensões geopolíticas e econômicas sem deteriorações persistentes nas avaliações.
Em março, a economia global continua mostrando sinais contraditórios, com um crescimento que continua resistindo, apesar de um ambiente carregado de incertezas. Nos Estados Unidos, a atividade se mantém em níveis acima do previsto, impulsionada por um consumo ainda sólido, embora o mercado de trabalho comece a mostrar sinais de desaceleração.
A recente alta nos preços do petróleo, influenciada pelas tensões no Oriente Médio, volta a colocar a inflação no centro das atenções. Cerca de 20% do petróleo mundial e 25% do gás natural liquefeito transitam pelo Estreito de Ormuz, fazendo com que sua paralisação gere um choque na oferta dessas commodities. Esse fator pode adicionar pressão aos bancos centrais em seu processo de convergência para taxas mais consistentes com um cenário de normalização. A interação entre riscos geopolíticos, inflação e política monetária será determinante para a trajetória macroeconômica no segundo semestre do ano.
No âmbito internacional, a Europa busca, além dos estímulos fiscais, o caminho para sair da estagnação, enquanto a situação da China continua complexa. Persistem divergências relevantes entre a produção e o consumo interno, bem como desafios em setores específicos, o que poderia resultar em ajustes adicionais na política econômica. O Japão, por sua vez, mantém um cenário marcado pela virada política e pelo maior otimismo dos investidores estrangeiros, embora sujeito a flutuações cambiais e às condições externas. A América Latina, distante dos conflitos geopolíticos e dada a sua tendência exportadora de matérias-primas, é menos vulnerável do que outras regiões aos efeitos de uma guerra mais extensa no Oriente Médio, embora com claros vencedores e perdedores. O Brasil, que é exportador líquido de petróleo, seria favorecido em termos de crescimento, se o preço do petróleo se mantivesse em níveis elevados de forma sustentada.
Por outro lado, a inteligência artificial (IA) posiciona-se como uma quarta revolução industrial, gerando melhorias na produtividade e abrindo novas possibilidades de investimento. A IA é uma tendência estrutural que será um motor fundamental para o crescimento a longo prazo, apesar de poder gerar ajustes no mercado de trabalho e tornar obsoletas outras formas de trabalhar. Um dos grandes desafios será identificar vencedores e perdedores, dada a rapidez com que as mudanças nas expectativas são internalizadas nos preços dos ativos financeiros.
Veja o Relatório Completo