A hazy shade of winter
A prolongação do conflito no Oriente Médio até abril mantém a volatilidade elevada e provocou quedas sincronizadas nos mercados financeiros durante março. A falta de visibilidade sobre a duração da guerra, somada à crescente fragilidade do ambiente macroeconômico, nos leva a reforçar uma postura de cautela nas carteiras de investimento. A retórica imprevisível do presidente Donald Trump acrescentou uma camada adicional de incerteza que complica a tomada de decisões de investimento. Suas sucessivas declarações dão a entender que ele está interessado em encerrar o conflito o mais rápido possível, mas a pouca confiabilidade de suas palavras — que oscilam entre promessas de resolução rápida e ameaças apocalípticas sobre “o fim do mundo” — dificulta a avaliação racional dos cenários. Esse ambiente reforça a convicção de manter carteiras amplamente diversificadas como proteção contra a elevada volatilidade e a
correlação positiva entre ações e títulos.
No plano macroeconômico global, a economia continua apresentando sinais contraditórios. Nos Estados Unidos, o mercado de trabalho apresenta sinais contraditórios e sua evolução será determinante para o rumo da política monetária. Assim, se os dados de emprego começarem a decepcionar, acreditamos que o Federal Reserve (Fed) optaria por dar maior peso à proteção do emprego em detrimento da inflação, o que poderia reativar a discussão sobre cortes nas taxas. Nesse contexto, a última reunião do Fed, realizada em março, mostrou que a cautela esteve por trás da decisão de manter a faixa de taxas, enquanto o dot plot continuou indicando uma redução de 25 pontos-base nas taxas para 2026. No entanto, o mercado prevê que a faixa atual se mantenha pelo resto do ano, com os dados de criação de empregos de março surpreendendo com 178 mil novos postos de trabalho, enquanto os dados de fevereiro foram revisados para baixo, indicando uma perda de 133 mil empregos.
Por sua vez, a inflação voltou ao centro das atenções devido à alta do preço do petróleo, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio. O bloqueio do Estreito de Ormuz gera um choque de oferta de matérias-primas energéticas, aumentando a pressão sobre os bancos centrais, que enfrentam o dilema de controlar a inflação, o que, por sua vez, pode prejudicar a atividade econômica. Por outro lado, vemos hoje as autoridades monetárias mundiais agindo com prudência diante de um panorama incerto, e prevemos que a inflação subjacente nos EUA poderá demorar mais para convergir para a meta de 2% – embora a inflação nos serviços dê sinais de moderação, a dos bens demorará mais para cair diante do choque mencionado. Em nossa opinião, esse contexto justifica manter classes de ativos que nos protejam diante de um cenário mais provável de estagflação.
No âmbito político e diante das eleições de meio de mandato nos EUA, o cenário político acrescenta mais uma camada de incerteza. A possibilidade de uma vitória democrata em ambas as câmaras do Congresso poderia acentuar o impasse legislativo; no entanto, até agora — com exceção de março —os mercados e a economia têm demonstrado resiliência apesar da política. De fato, os mercados começam a considerar mais provável um cenário em que a Câmara dos Deputados e o Senado estejam sob controle democrata.
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